Lesões mais frequentes em meio aquático

As situações que estão na origem do acidente ou que deste resultam, são várias sendo as mais importantes as seguintes:
- Situações do foro médico;
- Situações do foro do trauma;
- Situações resultantes do mergulho por apneia ou com escafandro autónomo.
► Situações do foro médico
Ao abordar uma vítima de afogamento, deverá procurar saber através da própria ou por intermédio dos familiares ou acompanhantes, se esta comeu há pouco tempo ou possui antecedentes de doença nomeadamente de foro cardíaco, diabetes, epilepsia, alcoolismo, renal e gastrointestinal.Deve também procurar na vítima sinais que o levem a suspeitar de qualquer uma destas doenças.

► Situações do foro traumático
A maior parte das vítimas por afogamento apresentam traumatismos crânio-encefálico ou vertebro-medulares normalmente devidos a impacto durante o mergulho, especialmente em locais pouco profundos ou na presença de rochas.Ao abordar qualquer afogado, deve sempre suspeitar da presença de TCE e/ou TVM nomeadamente se a vitima for encontrada nos locais atrás referidos.

► Situações resultantes do mergulho por apneia ou com escafandro autónomo
Os acidentes de mergulho provocados pela apneia (ausência de respiração) ou com escafandro autónomo são dos mais variados, no entanto baseiam-se em dois aspectos, a falta de O2 e a pressão exercida pela água sobre o organismo.
Assim temos:
► Acidentes Tóxicos, os acidentes que ocorram por intoxicação no mergulho, são motivados por inalação excessiva de O2, CO2 e CO. As intoxicações por O2 são mais raras e ocorrem quando a vitima utilizou misturas muito ricas em O2 e durante longos períodos. As intoxicações por CO2 ou CO ocorrem quando o mergulhador respirou ar contendo os referidos gases em quantidades superiores às toleradas pelo organismo. Isto ocorre quando as garrafas de ar comprimido utilizadas no mergulho são preenchidas em compressores que se localizam junto de fontes de CO2 ou CO.
► Barotraumatismos, entende-se como sendo o conjunto de lesões provenientes de acções agressivas por variação de pressão, sobre o organismo (Ex.: uma subida rápida para a superfície, em mergulhos profundos).
Também sabemos que o corpo humano contém cavidades, as quais por sua vez, contêm ar ou gás. O mergulhador, ao estar sujeito a grandes diferenças de pressão, irá sofrer alterações do volume desses gases contidos nas referidas cavidades do seu corpo, dando origem, em determinados casos, a lesões mais ou menos graves.
► Dessas lesões, as mais importantes são:
● Barotraumatismo do ouvido médio e interno;
● Barotraumatismo dos seios perinasais;
● Sobrepressão Pulmonar - é considerado um dos acidentes mais graves a que o mergulhador está sujeito. Trata-se de uma lesão que ocorre durante a subida e que se traduz por distensão ou rotura dos alvéolos pulmonares devido ao “aprisionamento” do ar nestas estruturas, com consequente expansão destas por diminuição da pressão e aumento de volume. Sensação de dor e ardor a nível de todo o tórax, tosse, expectoração sanguinolenta e dificuldade ventilatória.
● Cólicas Abdominais, trata-se de uma situação muito frequente que ocorre durante a subida, devido à expansão dos gases contidos nas cavidades do tubo digestivo.
Os sinais e sintomas mais importantes são a dor abdominal intensa associada a mal estar geral.
● Narcose por Azoto, também conhecido por embriaguez das profundidades ou “Ivresse”, é um acidente que ocorre ao mergulhador autónomo em cotas superiores a 40 metros de profundidade, e que desaparece quando o mesmo regressa a menores profundidades ou mesmo à superfície. Traduz-se essencialmente por alterações do comportamento.
● Doença ou Sindroma de Descompressão, esta situação constitui uma das mais graves dentro dos acidentes em meio aquático. Com o aumento da pressão a que o organismo está sujeito durante o mergulho, alguns gases assumem o estado líquido e dissolvem-se no sangue e tecidos. Durante a subida (se esta for demasiado rápida ou não forem cumpridas as regras da descompressão), com a diminuição da pressão, o processo de libertação dos gases dissolvidos não se processa adequadamente. Este procedimento origina a passagem dos gases novamente do estado liquido para o estado gasoso originando uma libertação de bolhas de gás para a rede sanguínea e tecidos que, como consequência irá provocar micro-embolias de forma generalizada a todo o organismo.
Como sinais e sintomas, poderá encontrar:
● Manchas avermelhadas na pele acompanhadas de bolhas ou pápulas concretamente nos pavilhões auriculares e asas do nariz, e dolorosas à palpação;
● Dores auriculares intensas que aumentam progressivamente e poderão generalizar-se. Os ombros são as zonas mais atingidas, seguindo-se os cotovelos e a anca;
● Fadiga intensa, normalmente desproporcionada para o esforço realizado;
● Poderá haver perda de conhecimento, nas situações mais graves;
● A vítima poderá apresentar hemiplegia, paraplegia ou tetraplegia;
● Alterações acentuadas dos sinais vitais. A frequência ventilatória e cardíaca aumentam e a tensão arterial poderá apresentar valores elevados (se houver lesão grave a nível cerebral) ou valores baixos. Nas situações mais graves poderá haver paragem cardio-respiratória.
A maior parte das situações aqui descritas, necessitarão de tratamento em câmara de descompressão. Por tal facto, a equipa deve pedir para informar o CODU para estudo da possibilidade de transferir o indivíduo para o local mais próximo e acessível para um possível tratamento por descompressão. Devido à hipotermia instalada o diagnóstico de paragem cardio-respiratoria é por vezes difícil no entanto, o prognóstico é mais animador pois com o frio as necessidades de consumo de O2 pelos órgãos diminuem. Partindo deste pressuposto existe a necessidade de manter manobras por muito mais tempo.
Actuação:
- Socorrer em segurança, de nada serve ir salvar uma vítima dentro de água (excepto em situações muito pontuais) se não se dispõe de condições de segurança para quem presta socorro os meios de acesso até à vítima são vários devendo a sua selecção obedecer à ordem que se segue:
- Lançamento de bóia ou corda até à vitima;
- Deslocamento até à vitima através de barco;
- Nadar até à vítima, o qual só deve ser feito caso possua formação técnica em socorros a náufragos.
- Manter uma atitude calma e segura;
- Retirar da água, considerar a possibilidade de lesão vertebro-medular associada. Recomenda-se a imobilização correcta e completa da vítima (plano duro) ainda dentro de água a partir do momento que o socorrista “tem pé”.
- Se a vitima flutua de barriga para baixo, deve utilizar ambos os seus braços para a virar de face para cima sem desalinhar a cabeça e o pescoço. De seguida, coloca-se sobre um plano duro por baixo da vítima;
- Desobstruir a via aérea e proceder à imobilização cervical;
- Logo que possível inicie a ventilação;
- As compressões torácicas não se podem fazer na água, mesmo que se tenha colocado o plano duro por baixo da vítima;
- Assim que a vitima é retirada da água deve começar de imediato as manobras de RCP;
- É importante manter a via aérea permeável, verificando a possibilidade de vómito e aspirando secreções frequentemente.
- Administrar O2 a 15 lt/min;
- Aquecer a vítima, seguindo a sequencia despir a vitima, limpar, secar e aquecer;
- O transporte desta vítima para o hospital não deve ser demasiadamente retardado, mesmo que só tenha necessitado de manobras mínimas par recuperar, já que o agravamento da situação e mesmo a morte podem surgir até às 48h, após um intervalo livre sem queixas evidentes;
- No caso do mergulhador com escafandro autónomo, leve a consola de mergulho que este possui.

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